Minha querida Marta,
Como te vou dizendo (e também a todos a quem falo de ti), estou sempre a conhecer-te. A saber coisas sobre quem tu és, pensas, sentes ou tinhas pensado fazer.
Este fim-de-semana descobri uma coisa nova que me chocou porque não sei exatamente o que estaria por de trás da escolha de fazer uma tatuagem com uma frase como esta. Quando é que pensaste fazê-lo? Era coisa de há muito? Ou simplesmente veio com a certeza de que a tua partida estava para breve?
Tenho tantas saudades tuas meu amor.
Estávamos na florista a comprar flores para a avó Zé e para ti. A mãe já tinha comentado na véspera que queria fazer algumas alterações na tua casa. Quer mudar:
- a tua fotografia que está a perder cor (nisso concordo inteiramente com ela, tu, que sempre foste luz, não podes perder cor);
- a mensagem que ficou do dia em que partiste. Não foi mensagem escolhida por nenhum nós e a mensagem que está não acrescenta nada, nem tão pouco descreve o que possamos todos sentir em relação à tua ausência. Claro que temos e teremos sempre saudades tuas, minha querida. Mas não é esse sentimento que te define. A solenidade das frases convencionadas para estas situações, nada têm que ver com a tua energia e alegria, nem tão pouco com a forma como te queremos preservar nas nossas mentes, corações e memórias. Não é assim que te queremos mostrar ao mundo.
A mãe quer colocar qualquer coisa que te defina. Qualquer coisa que diga e/ou relembre a quem te visita quem tu verdadeiramente és. Quer lá colocar a frase que disseste ter intensão de tatuar na tua pele: “Que o amor te salve na hora marcada.”
Como te dizia, contou-me isso na florista, mais ou menos do nada. Atingiu-me como uma flecha. Iniciou um turbilhão dentro de mim, que o único escape foi um sonoro FODA-SE! (acho que até tu me terias olhado de lado).
Porquê esta frase? Quando é que decidiste que seria esta? De onde nasce? Também gosto muito dela, Martinha, tem, porém, um peso…
Que tenhas e continues a ser abraçada pela luz é tudo o que nós queremos para ti. As incertezas existem a toda a hora porque desconhecemos o que existe. Temos, porém, a certeza de que toda tu és luz e amor. A essa certeza soma-se o amor que todos temos por ti desde o primeiro segundo que te soubemos a caminho… ainda assim (não querendo que se apague o que acabo de te dizer apenas com base numa preposição 😉) a tua ausência, por vezes tolda-nos a vista e leva-nos para sítios mais sombrios. Falta-nos a tua energia.
Os espaços não são os mesmos, as dinâmicas são todas diferentes (umas para melhor, há que reconhecê-lo, mas ainda sem a frescura, a fluidez a que todos estávamos habituados e de que necessitamos. Temos de a redescobrir. Temos de nos reinventar contigo e na tua ausência. Temos de nascer de novo, embora esse parto esteja a ser particularmente difícil porque ainda não conseguimos inteiramente aceitar a tua morte e a morte de quem um dia fomos. Ainda nos pesa muito a tua ausência.
Existem espaços novos. Espaços que te representam de algum modo. Houve a necessidade de te sentir presente através de espaços físicos, que não existindo antes foram construídos contigo em mente. Nos teus sítios preferidos, com algumas das coisas de que tanto gostas.
Ontem estive a cuidar do teu novo jardim. A retirar ervas daninhas e flores que, entretanto, secaram nos pés e que lá nada faziam senão impedir que as que ainda vêm a brotar o pudessem fazer de forma saudável.
Acho que na verdade estive a cuidar um pouco das duas.
Fez-me bem cuidar do teu jardim. Fi-lo com gosto, com cuidado, e com tempo – o meu tempo que a tua mãe qualifica como "com falta de ritmo". Embora também ela não o tenha ainda (está anos luz do que fazia com a velocidade que lhe era caraterística), desdobra-se em mil para que tudo continue a acontecer, tanto quanto possível, dentro de uma normalidade que já não existe e de uma outra que está ainda a definir-se.
Ainda não existe um novo normal. Para ninguém, diria. Por vezes andamos todos a "fingir" uma normalidade, um equilíbrio para não pesar o outro. Partilhamos-te, mas não partilhamos as nossas dores, acho que por vezes com receio de que o outro se quebre. Foi o que aconteceu na florista. A partilha da frase que reescreveste (“Que o amor te salve na hora marcada”) quebrou-me.
Cuidar do teu jardim foi importante por isso. Fui para os Valhascos para apoiar a tua mãe. Era fim de semana de apanha de azeitona, e por isso seria um fim de semana difícil. A tua ausência seria particularmente notada. E na verdade fui eu quem quebrou... cuidar do teu jardim foi uma forma de cuidar de mim. Uma forma de encontrar alguma tranquilidade e paz.
Gosto muito de ti, miúda! Já te tinha dito isso hoje?
Gosto muito de ti! Amo-te muito! Dorme bem! Deixa-me sonhar contigo!

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