08 abril 2006

A um menino misterioso



A um menino misterioso
Cujo silêncio o torna muito charmoso,
Achei que lhe devia vir dizer que,
Para além da mãe às vezes lhe roubar,
Eu também gosto muito de dar!

Parecido com o que dizia o Pessoa:
Meio olhar basta, para bom observador!
A Zita às vezes é chata e “robona”, mas é boa!
E o Luís sobre tudo gosta de ser bom conhecedor!

Mas de entre tudo o que gosta de saber,
Parece-me que a ciência é uma das suas paixões!
E eis que, depois de muito pensar e percorrer,
Encontrei um livro sobre tempestades, tufões e furacões!

Esperando que gostes da leitura,
Resta-me desejar-te uma boa aventura!

04 abril 2006

A Criança que pensa em fadas (Alberto Caeiro)


A Criança que pensa em fadas e acredita em fadas
Age como um deus doente, mas um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

03 abril 2006

Ser Feliz (Fernando Pessoa)



Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá é falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que seja injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo.

02 abril 2006

Quando eu morrer... (Sophia de Mello Breyner)


Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

http://www.coute.blogger.com.br/

31 março 2006

Ausência (Sophia de Mello Breyner)


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

30 março 2006

DESEJOS (Carlos Drummond de Andrade )


Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crónica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Musica de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-sol na roca
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho brancoBolero de Ravel
E muito carinho meu.

29 março 2006

Perguntas à Língua Portuguesa (Mia Couto)


Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
  • Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
  • No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
  • A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
  • O mato desconhecido é que é o anonimato?
  • O pequeno viaduto é um abreviaduto?
  • Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
  • Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
  • Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
  • Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
  • O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
  • Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
  • Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
  • Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
  • Mulher desdentada pode usar fio dental?
  • A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
  • As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
  • Um tufão pequeno: um tufinho?
  • O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
  • Em águas doces alguém se pode salpicar?
  • Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
  • Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
  • Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
  • Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente

23 março 2006

Papá Ricardo


Como ainda não sei falar,
E tenho alguma dificuldade em me expressar,
Aproveito que a tia tem sonhos loucos,
Para vos ir falando aos poucos!

(Papá,
Desculpa lá a tia Vera!?!
Ela não é má...
Só ainda não consegue fazer mágicas, quem dera!)

Isto de te comprar prendas, é muito complicado!
Mas a mamã deu-me uma ajuda preciosa!
Ela diz que tenho a quem sair vaidosa:
Ao meu querido papá Ricardo!

Mas apesar do atraso,
Que nos trouxe algum embaraço...
De ti não me esqueci!
E eis a minha prenda, para te dizer o quanto gosto de ti!

Espero que seja do teu agrado, já que não sabia o que te dar!
O mundo, ainda mal o conheço ...
Mas parece-me que esta prenda é um bom começo
Para te dizer que uma das minhas poucas certezas, é a de muito te amar!

Mas sabias, papá, que o dia do pai comemorar,
É um bocadinho como o Natal?
Cabe-nos a nós lembrar,
De todos os dias fazer um especial!

Tal como à tia pedi para dizer à mamã,
Digo-to a ti também: tenho o melhor pai do mundo,
Ontem, hoje, amanhã....
Sempre e a acima de tudo!

Desejo-te de um dia muito feliz!
Eu! A Marta! A tua petiz!

14 março 2006

Hoje em Sonhos (Não fosse a Marta um dos nossos maiores sonhos)

Hoje em sonhos, a Marta pediu-me um favor!
Que por muito que fosse um terror,
Dissesse ao papá Ricardo e à mamã Tita,
Que ela é uma Catita!

“Quando mal me portar, não será com intenção...
Nos genes está-me a traquinisse!
Seria muito se pedisse,
Que me castigasses com ponderação?”

Para não te esqueceres do que as mães dizem de mau e de bom,
Resolvi ajudar a Marta!
Comprámos-te uma prenda, que deverá ter o dom,
De te relembrar aquilo que de saberes estás farta!

A Marta também mandou dizer
Que sabe que tem a melhor mãe do mundo!
De quem muito gosta e com quem muito tem para aprender,
E di-lo do coração! Lá do fundo!

Parabéns!

25 dezembro 2005

Está tudo Óptimo...


Eis uma outra forma de dizer:
"Está uma delícia tia!"
Vamos lá então tentar perceber,
Se ele é mesmo é mesmo mestre na gastronomia!

Para não borrar a pintura
Escolhi um livro de receitas básicas,
Que para além de apelar à aventura
Ajuda a criar coisas mágicas.

Aventura nos dois sentidos:
A de fazer: gelados, pães e pudins de peixes fingidos;
E a de degustar!
Lembrando-nos sempre que, mais que tudo,
Para outros cozinhar é uma forma de amar.

Um beijinho muito grande!

14 dezembro 2005

Discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura 2005

Em 1958, escrevi o seguinte:

«Não há grandes diferenças entre a realidade e a ficção, nem entre o verdadeiro e o falso. Uma coisa não é necessariamente ou verdadeira ou falsa; pode ser ao mesmo tempo verdade e mentira».

Creio que estas afirmações ainda fazem sentido, e ainda se aplicam à exploração da realidade através da arte. Assim, como escritor, mantenho-as, mas como cidadão não posso; como cidadão tenho de perguntar: Que é verdade? Que é mentira?

A verdade na arte dramática é sempre esquiva. Nunca a encontramos completamente, mas a busca por ela é compulsiva. A busca é claramente o que motiva o empenho. A busca é a tua tarefa. Muitas vezes, tropeçamos com a verdade na escuridão, chocando com ela ou vislumbrando uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, frequentemente sem nos darmos conta disso. Mas a verdade real é que na arte dramática não há tal coisa como uma verdade única. Há muitas. Estas verdades desafiam­‑se mutuamente, recusam­‑se mutuamente, reflectem-se mutuamente, ignoram-se mutuamente, provocam­‑se mutuamente, são cegas umas em relação às outras. Às vezes, sentimos que temos a verdade de um momento na mão, então escapa­‑se entre os nossos dedos e perde­‑se.

Perguntaram-me com frequência como nascem as minhas peças. Não sei dizê­‑lo. Como também não posso resumir as minhas peças, a não ser para dizer que foi isto o que aconteceu. Isso é o que elas dizem. Isso é o que elas fizeram.

A maior parte das peças são geradas por uma frase, uma palavra ou uma imagem. A palavra é com frequência rapidamente seguida pela imagem. Darei dois exemplos de duas frases que apareceram na minha cabeça do nada, seguidas por uma imagem, seguidas por mim.

As peças são The homecoming e Old times. A primeira frase de The homecoming é «Que fizeste com a tesoura?» A primeira frase de Old times é «Escuro».

Em ambos os casos, não tinha mais informação.

No primeiro caso alguém estava, obviamente, à procura de uma tesoura e perguntava pelo seu paradeiro a alguém de quem suspeitava que provavelmente a tinha roubado. Mas eu, de alguma maneira, sabia que à pessoa interrogada pouco lhe importava a tesoura ou, já agora, o interrogador.

“Escuro”, tomei como a descrição do cabelo de alguém, o cabelo de uma mulher, e era a resposta a uma pergunta. Em ambos os casos vi­‑me compelido a dedicar­‑me ao assunto. Isto ocorreu visualmente, numa muito lenta graduação, da sombra para a luz.

Sempre começo uma obra chamando aos personagens A, B e C.

Na peça que se tornou The Homecoming, vi um homem entrar numa sala austera e fazer a sua pergunta a um homem mais jovem sentado num sofá feio a ler um jornal de corridas de cavalos. De alguma forma suspeitava que A era um pai e que B era seu filho, mas não tinha provas. Isto foi, no entanto, confirmado pouco depois quando B (que depois seria Lenny ) disse a A (que depois seria Max), «Pai, importas­‑te que mude de assunto? Quero perguntar­‑te uma coisa. O jantar que tivemos antes, como se chama? Como o chamas tu? Por que não compras um cão? És um cozinheiro de cães. A sério. Pensas que estás a cozinhar para cães». Assim, como B chama “Pai” a A, pareceu­‑me razoável assumir que eram pai e filho. E havia também claramente o cozinheiro e a sua comida não parecia ser muito valorizada. Queria isto dizer que não havia uma mãe? Não sabia. Mas, como disse a mim mesmo então, os nossos princípios nunca sabem os nossos fins.

“Escuro”. Uma grande janela. Um céu ao entardecer. Um homem, A (que depois seria Deeley) e uma mulher, B (que depois seria Kate) sentados com bebidas. «Gorda ou magra», pergunta o homem. De quem falam? Mas então vejo, de pé junto à janela, uma mulher, C (que depois seria Anna), alumiada por uma luz diferente, de costas para eles, com o cabelo escuro.

É um momento estranho, o momento de criar personagens que até esse momento não tinham tido existência. O que se segue é irregular, vacilante, mesmo alucinatório, ainda que por vezes possa ser uma avalanche imparável. A posição do autor é esquisita. Em certo sentido, não é bem-vindo pelas personagens. As personagens resistem­‑lhe, não é fácil conviver com elas, são impossíveis de definir. Certamente não podemos dar­‑lhes ordens. Até certo ponto, jogamos um jogo interminável com elas, ao gato e ao rato, ao adivinha quem é [blind man’s buff], às escondidas. Mas finalmente descobrimos que temos pessoas de carne e osso nas nossas mãos, pessoas com uma vontade e com uma sensibilidade individual próprias, feitas de partes componentes que somos incapazes de mudar, manipular ou distorcer.

Assim, a linguagem na arte continua a ser uma ambiciosa transação, umas areias movediças, um trampolim, uma poça gelada que pode ceder sob os pés, os do autor, em qualquer momento.

Mas, como disse, a busca da verdade nunca pode parar. Não pode ser suspensa, não pode ser adiada. Tem que ser enfrentada, ali mesmo, no acto.

O teatro político apresenta uma variedade totalmente diferente de problemas. Há que evitar os sermões a todo o custo. A objectividade é essencial. Deve­‑se deixar que as personagens respirem por sua própria conta. O autor não pode confiná­‑las nem constringi­‑las para satisfazer o seu próprio gosto, disposição ou preconceitos. Tem de estar preparado para se aproximar delas de uma variedade de ângulos, de um sortido amplo e desinibido de perspectivas, talvez, ocasionalmente, tomá-las de surpresa, mas apesar de tudo, dando-lhes a liberdade para ir aonde desejem. Isto nem sempre funciona. E a sátira política, evidentemente, não adere a nenhum destes preceitos, na verdade, faz precisamente o contrário, o que é a sua autêntica função.

Na minha peça The birthday party creio que permito o funcionamento de um amplo leque de opções numa densa floresta de possibilidades antes de finalmente me concentrar num acto de subjugação.

Mountain Language não aspira a essa amplitude de funcionamento. Permanece brutal, curta e feia. Mas os soldados na peça sim divertem­‑se com aquilo. Um por vezes esquece­‑se que os torturadores se aborrecem facilmente. Precisam de se rir de vez em quando para manter o ânimo. Isto foi, evidentemente, confirmado pelos acontecimentos em Abu Ghraib em Bagdade. Mountain language dura só 20 minutos, mas poderia continuar hora após hora, uma e outra e outra vez, o mesmo padrão repetido de novo e de novo, uma e outra vez, hora após hora.

Ashes to ashes, por outro lado, dá-me a impressão de ter lugar debaixo de água. Uma mulher que se afoga, a sua mão que emerge das ondas, que se afunda e desaparece, procurando outras, mas não encontrando ali ninguém, seja acima seja debaixo de água, encontrando unicamente sombras, reflexos, boiando; a mulher uma figura perdida numa paisagem de naufrágio, uma mulher incapaz de escapar do destino que parecia pertencer apenas a outros.

Mas, como eles morreram, ela também deve morrer.

A linguagem política, tal como é usada pelos políticos, não se adentra em nenhum destes territórios dado que a maioria dos políticos, segundo a evidência disponível, não estão interessados na verdade mas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder é essencial que as pessoas permaneçam na ignorância, que vivam na ignorância da verdade, mesmo da verdade sobre as suas próprias vidas. O que nos rodeia é portanto um enorme entrelaçado de mentiras, das quais nos alimentamos.

Como cada indivíduo aqui sabe, a justificação para a invasão do Iraque era que Saddam Hussein possuía um perigosíssimo arsenal de armas de destruição em massa, algumas das quais podiam ser lançadas em 45 minutos, provocando uma apavorante devastação. Asseguraram-nos que isso era verdadeiro. Não era verdadeiro. Disseram-nos que o Iraque tinha uma relação com a Al Qaeda e que partilhava a responsabilidade pela atrocidade de 11 de Setembro de 2001 em Nova York. Asseguraram-nos que isto era verdadeiro. Não era verdadeiro. Disseram-nos que o Iraque ameaçava a segurança do mundo. Asseguraram-nos que era verdadeiro. Não era verdadeiro.

A verdade é algo totalmente diferente. A verdade tem a ver com a forma como os Estados Unidos entendem o seu papel no mundo e como decide encarná-lo.

Mas antes de voltar ao presente, gostaria de olhar o passado recente, refiro-me à política externa dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra Mundial. Creio que é nossa obrigação submeter este período a pelo menos algum tipo de escrutínio, ainda que limitado, que é tudo o que o tempo nos permitirá aqui.

Todos sabem o que aconteceu na União Soviética e por toda a Europa de Leste durante o período do pós­‑guerra: a brutalidade sistemática, as múltiplas atrocidades, a implacável supressão do pensamento independente. Tudo isto foi amplamente documentado e verificado.

Mas a minha contenda aqui é que os crimes dos EUA no mesmo período só foram registrados de forma superficial, não digamos já documentados, ou admitidos, ou reconhecidos sequer como crimes. Creio que isto deve ser encarado e que a verdade [sobre este assunto] tem muito a ver com a situação em que se encontra o mundo actualmente. Embora limitadas, até certo ponto, pela existência da União Soviética, as acções dos Estados Unidos por todo o mundo deixaram claro que tinham concluído que tinham carta branca para fazer o que quisessem.

A invasão directa de um estado soberano nunca foi, na verdade. o método favorito dos Estados Unidos. Na maioria dos casos, preferiram o que descreveram como “conflito de baixa intensidade”. Conflito de baixa intensidade significa que milhares de pessoas morrem, mas mais lentamente do que se lançássemos uma bomba sobre eles de um só golpe. Significa que infectamos o coração do país, que estabelecemos um tumor maligno e observamos o desenvolvimento da gangrena. Quando o povo foi submetido – ou moido a paus – o que vem a ser o mesmo – e os nossos próprios amigos, os militares e as grandes corporações, se sentam confortavelmente no poder, vamos à frente da câmara e dizemos que a democracia triunfou. Isto foi um lugar comum na política externa dos Estados Unidos durante os anos a que me refiro.

A tragédia da Nicarágua foi um caso muito significativo. Escolhi­ apresentá­­­‑lo aqui como um exemplo potente de como os Estados Unidos vêem o seu papel no mundo, tanto então como agora.

Estive presente numa reunião na embaixada dos EUA em Londres no final dos anos oitenta.

O Congresso de Estados Unidos estava prestes a decidir se dar mais dinheiro aos Contras para a sua campanha contra o estado da Nicarágua. Eu era um membro de uma delegação que vinha falar em nome da Nicarágua, mas a pessoa mais importante nesta delegação era o Padre John Metcalf. O líder do grupo dos EUA era Raymond Seitz (então número dois do embaixador, mais tarde embaixador ele mesmo). O Padre Metcalf disse: «Senhor, dirijo uma paróquia no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde, um centro cultural. Vivíamos em paz. Há alguns meses uma força dos Contra atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o centro de saúde, o centro cultural. Violaram as enfermeiras e as professoras, assassinaram os médicos, da forma mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor, peça que o governo dos EUA retire o seu apoio a esta revoltante actividade terrorista».

Raymond Seitz tinha muito boa reputação como homem racional, responsável e altamente sofisticado. Era grandemente respeitado nos círculos diplomáticos. Escutou, fez uma pausa, e depois falou com alguma gravidade. «Pai», disse, «deixe-me dizer-lhe algo. Na guerra, as pessoas inocentes sofrem sempre». Houve um frio silêncio. Olhamos para ele. Ele não piscou.

As pessoas inocentes, de facto, sempre sofrem.

Finalmente, alguém disse: «Mas neste caso as “pessoas inocentes” foram vítimas de uma horrível atrocidade subvencionada pelo seu governo, uma entre muitas. Se o Congresso concede aos Contras mais dinheiro, mais atrocidades desta tipo terão lugar. Não é assim? Não é, portanto, o seu governo culpado de apoiar actos de assassinato e destruição contra os cidadãos de um estado soberano?»

Seitz manteve­‑se imperturbável. «Não estou de acordo que os factos, tal como foram apresentados, apoiem as suas afirmações», disse.

Enquanto abandonávamos a embaixada, um assessor estado­‑unidense disse­‑me que apreciava as minhas peças. Não respondi.

Devo recordar-lhes que o então presidente, Reagan, fez a seguinte declaração: «Os Contras são o equivalente moral dos nossos Pais Fundadores».

Os Estados Unidos apoiaram a brutal ditadura de Somoza na Nicarágua durante 40 anos. O povo nicaraguano, liderado pelos sandinistas, derrocou este regime em 1979, uma impressionante revolução popular.

Os sandinistas não eram perfeitos. Tinham a sua quota parte de arrogância e a sua filosofia política continha um certo número de elementos contraditórios. Mas eram inteligentes, racionais e civilizados. Propuseram-se estabelecer uma sociedade estável, decente e plural. A pena de morta foi abolida. Centenas de milhares de camponeses acometidos pela pobreza foram resgatados dos mortos. Mais de 100.000 famílias receberam títulos de propriedade sobre terras. Foram construídas duas mil escolas. Uma notável campanha educativa reduziu o analfabetismo no país a menos de um sétimo. Foram estabelecidos uma educação e um serviço de saúde gratuitos. A mortalidade infantil foi reduziu em um terço. A poliomielite foi erradicada.

Os Estados Unidos denunciaram estas realizações como subversão marxista/leninista. Do ponto de vista do governo dos EUA, estava-se a estabelecer um exemplo perigoso. Se fosse permitido à Nicarágua estabelecer normas básicas de justiça social e económica, se lhe fosse permitido subir os níveis de saúde e educação e alcançar a unidade social e o auto­‑respeito nacional, os países vizinhos poriam as mesmas questões e fariam o mesmo. Havia evidentemente nessa época uma feroz resistência ao status quo em El Salvador.

Falei anteriormente sobre “um entrelaçado de mentiras” que nos rodeia. O presidente Reagan descrevia habitualmente a Nicarágua como um “calaboiço totalitário”. Isto foi tomado de forma geral pelos meios de comunicação, e certamente pelo governo britânico, como um comentário correcto e justo. Mas, na verdade, não havia registro de esquadrões da morte sob o governo sandinista. Não havia registro de torturas. Não havia registro de uma brutalidade sistemática ou oficial por parte dos militares. Nenhum sacerdote foi jamais assassinado na Nicarágua. Havia, na veradde, três sacerdotes no governo, dois jesuítas e um missionário Maryknoll. Os calaboiços totalitários estavam na realidade ao lado, em El Salvador e na Guatemala. Os Estados Unidos tinham feito cair o governo democraticamente eleito da Guatemala em 1954 e estima­‑se que mais de 200.000 pessoas tinham sido vítimas das sucessivas ditaduras militares.

Seis dos mais eminentes jesuítas do mundo foram brutalmente assassinados na Universidade da América Central em San Salvador em 1989 por um batalhão do regimento Alcatl treinado em Fort Benning, Geórgia, EUA. Esse homem extremamente corajoso, o Arcebispo Romero, foi assassinado enquanto dizia a missa. Estima-se que morreram 75.000 pessoas. Por que foram assassinadas? Foram assassinadas porque acreditavam que uma vida melhor era possível e que devia ser realizada. Essa crença qualificava­‑os imediatamente como comunistas. Morreram porque se atreveram a questionar o status quo, a interminável situação de pobreza, a doença, a degradação e a opressão que tinham recebido como herança.

Os Estados Unidos finalmente fizeram cair o governo sandinista. Levou alguns anos e uma resistência considerável, mas uma perseguição económica implacável e 30.000 mortos finalmente minaram o ânimo do povo nicaraguano. Estavam exaustos e acometidos pela pobreza uma vez mais. Os casinos voltaram ao país. A saúde e a educação gratuitas acabaram. As grandes empresas voltaram para valer. A “democracia” tinha triunfado.

Mas esta “política” não estava, de modo nenhum, restrita à América Central. Foi conduzida por todo o mundo. Era interminável. E é como se nunca se tivesse passado.

Os Estados Unidos apoiaram e em muitos casos engendraram cada ditadura militar de direita no mundo depois do final da Segunda Guerra Mundial. Refiro-me a Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador, e, claro, Chile. O horror que os Estados Unidos infligiram ao Chile em 1973 não poderá ser nunca purgado nem esquecido.

Centenas de milhares de mortes tiveram lugar em todos estes países. Tiveram lugar? E são elas em todos os casos atribuíveis à política externa dos EUA? A resposta é sim, tiveram lugar e são atribuíveis à política externa dos EUA. Mas vocês não o saberiam.

Nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto acontecia não estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse. Os crimes dos Estados Unidos têm sido sistemáticos, constantes, imorais, cruéis, mas muito poucas pessoas falaram efectivamente deles. É preciso reconhecer isto aos Estados Unidos. Exerceram uma manipulação bastante clínica do poder em todo o mundo enquanto se disfarçavam como uma força ao serviço do bem universal. É um exercício de hipnose brilhante, até espirituoso, altamente bem sucedido.

Digo-vos que os Estados Unidos são sem dúvida o maior espectáculo ambulante. Por brutais, indiferentes, desdenhosos e implacáveis que sejam, são também muito inteligentes. Como vendedores não têm rival, e a mercadoria que melhor vendem é o amor próprio. Trata­‑se de um vencedor. Escutem todos os presidentes dos Estados Unidos na televisão dizer as palavras, “o povo americano”, como na frase “digo ao povo americano que é hora de rezar e defender os direitos do povo americano e peço ao povo americano que confie no seu presidente na acção que vai empreender em benefício do povo americano”.

É uma estratagema brilhante. A linguagem é efectivamente utilizada para manter o pensamento descansado. As palavras “o povo americano” produzem uma almofada de tranquilidade verdadeiramente voluptuosa. Não precisamos de pensar. Simplesmente recostemo­‑nos na almofada. A almofada pode estar a sufocar a nossa inteligência e as nossas capacidades críticas mas é muito confortável. Isto não se aplica, evidentemente, aos 40 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza e aos 2 milhões de homens e mulheres prisioneiros no vasto gulag de prisões, que se estende ao longo dos Estados Unidos.

Estados Unidos já não se incomodam com os conflitos de baixa intensidade. Não vêem nenhum interesse em ser reticente ou dissimulado. Põem as suas cartas na mesa sem medo nem favor. Simplesmente está­‑se marimbando para as Nações Unidas, para a lei internacional ou a discordância crítica, que encara como impotente e irrelevante. Também tem o seu próprio cãozinho que ladra seguindo atrás pela trela, a patética e indolente Grã-Bretanha.

O que aconteceu à nossa sensibilidade moral? Chegamos a ter alguma? O que significam estas palavras? Será que se referem a um termo muito raramente utilizado nestes dias – consciência? Uma consciência que tem a ver não só com os nossos próprios actos, mas também com a nossa responsabilidade partilhada nos actos dos outros? Está tudo isto morto? Olhem para a Baía de Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem acusação durante três anos, sem representação legal ou o devido processo, tecnicamente detidos para sempre. Esta estrutura totalmente ilegítima é mantida em desafio à Convenção de Genebra. Não só é tolerada, mas mal é considerada pelo que se chama a “comunidade internacional”. Esta ultraje criminoso está a ser cometido por um país, que se declara a si mesmo como “o líder do mundo livre”. Será que pensamos nos habitantes da Baía de Guantánamo? O que dizem os meios de comunicação sobre eles? Aparecem ocasionalmente – uma pequena menção na página seis. Eles foram consignados a uma terra de ninguém da qual, na verdade, podem nunca mais voltar. No momento, muitos estão em greve de fome, a ser alimentados à força, incluídos os residentes britânicos. Não há subtilezas nestes procedimentos de alimentação. Nem sedativos nem anestésicos. Só um tubo inserido no teu nariz e dentro da tua garganta. Tu vomitas sangue. Isto é tortura. Que disse o secretário britânico dos negócios estrangeiros sobre isto? Nada. Que disse o primeiro­‑ministro britânico sobre isto? Nada. Por que não? Porque os Estados Unidos disseram: criticar a nossa conduta na Baía de Guantánamo constitui um acto pouco amistoso. Ou estais connosco ou contra nós. Assim, Blair cala­‑se.

A invasão de Iraque foi um acto bandido, um acto de evidente terrorismo de estado, demonstrando um desprezo absoluto pelo conceito de lei internacional. A invasão foi uma acção militar arbitrária baseada numa série de mentiras atrás de mentiras e numa grosseira manipulação dos meios de comunicação e, portanto, do publico; um acto visando consolidar o controle militar e económico dos Estados Unidos sobre o Médio Oriente disfarçado – como último recurso – tendo todas as outras justificações caído por si mesmas – de libertação. Uma formidável afirmação de força militar responsável pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes.

Levámos tortura, bombas de fragmentação, urânio empobrecido, inumeráveis actos de assassinato aleatório, miséria, degradação e morte ao povo iraquiano e chamamos a isso “levar a liberdade e a democracia ao Médio Oriente”.

Quantas pessoas é preciso matar antes de se estar qualificado para ser descrito como um assassino em massa e um criminoso de guerra? Cem mil? Mais do que suficiente, pensaria eu. Por isso, é justo que Bush e Blair sejam levados perante o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Mas Bush foi esperto. Não ratificou o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Por isso, se algum soldado ou, já agora, político americano se achar no banco dos réus, Bush avisou que enviará os marines. Mas Tony Blair ratificou o Tribunal e está portanto disponível para a acusação. Podemos proporcionar ao Tribunal o seu endereço se estiver interessado. É o número 10 de Downing Street, Londres.

A morte neste contexto é irrelevante. Ambos, Bush e Blair colocam a morte bem longe, nas contas atrasadas. Pelo menos 100.000 iraquianos foram mortos pelas bombas e mísseis americanos antes de a insurgência iraquiana ter começado. Estas pessoas não têm importância. As suas mortes não existem. São vazios. Nem sequer estão registradas como estando mortas. «Não fazemos contagem de corpos», disse o general americano Tommy Franks.

No início da invasão foi publicada na primeira página dos jornais britânicos uma fotografia de Tony Blair beijando a bochecha de um rapazinho iraquiano. «Um criança agradecida» dizia a legenda. Uns dias depois apareceu uma história com uma fotografia, numa página interior, de outro rapaz de quatro anos sem braços. A sua família tinha sido explodida por um míssil. Ele foi o único sobrevivente. «Quando terei os meus braços de volta?» perguntou. A história foi deixada cair. Bem, Tony Blair não o segurava nos seus braços, nem o corpo de qualquer outra criança mutilada, nem corpo de qualquer cadáver ensanguentado. O sangue é sujo. Suja a tua camisa e a tua gravata quando estás a fazer um discurso sincero na televisão.

Os 2.000 americanos mortos são um embaraço. São transportados para as suas tumbas na escuridão. Os funerais são discretos, a salvo. Os mutilados apodrecem nas suas camas, alguns para o resto das suas vidas. Assim, os mortos e os mutilados apodrecem ambos, em diferentes tipos de tumbas.

Eis um extracto de um poema de Pablo Neruda: Explico Algumas Coisas:

E uma manhã tudo estava ardendo
e uma manhã as fogueiras
saíam da terra
devorando seres,
e desde então fogo,
pólvora desde então,
e desde então sangue.
Bandidos com aviões e com mouros,
bandidos com alianças e duquesas,
bandidos com frades negros abençoando
vinham pelo céu a matar crianças,
e pelas ruas o sangue das crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças

Chacais que o chacal recusaria,
pedras que o cardo seco morderia cuspindo,
víboras que as víboras odiariam!

Frente a vós vi o sangue
de Espanha levantar-se
para afogar-vos numa só onda
de orgulho e de facas!

Generais
traidores:
olhai a minha casa morta,
olhai a Espanha quebrada:
mas de cada casa morta sai metal ardendo
em vez de flores,
mas de cada vão de Espanha
sai a Espanha,
mas de cada criança morta sai uma espingarda com olhos,
mas de cada crime nascem balas
que vos acharão um dia o lugar
do coração.

Perguntareis por que a sua poesia
não nos fala do sonho, das folhas,
dos grandes vulcões do seu país natal?

Vinde ver o sangue pelas ruas,
vinde ver
o sangue pelas ruas,
vinde ver o sangue
pelas ruas!

Deixem­‑me tornar claro que citando o poema de Neruda não estou de modo nenhum a comparar a República Espanhola com o Iraque de Saddam Hussein. Cito Neruda porque em nenhum outro lugar da lírica contemporânea li uma descrição tão visceral e poderosa do bombardeamento de civis.

Disse antes que os Estados Unidos estão agora a ser totalmente francos ao pôr as suas cartas na mesa. Esse é o caso. A sua política oficial declarada é agora definida como “domínio de espectro total”. Este não é o meu termo, é o deles. “Domínio de espectro total” quer dizer controle da terra, mar, ar e espaço e todos os seus recursos.

Os Estados Unidos ocupam agora 702 bases militares por todo o mundo em 132 países, com a honrosa excepção da Suíça, claro. Não sabemos muito bem como chegaram lá, mas o facto é que estão lá.

Os Estados Unidos possuem 8.000 cabeças nucleares activas e operacionais. Duas mil estão em alerta permanente, prontas a serem lançadas 15 minutos após aviso. Estão a desenvolver novos sistemas de força nuclear, conhecidos como destruidores de bunkeres [bunk busters]. Os britânicos, sempre cooperativos, estão a planear substituir o seu próprio míssil nuclear, o Trident. A quem, pergunto-me, estão a apontar? A Osama Bin Laden? A ti? A mim? A Joe Dokes? China? Paris? Quem sabe? O que sim sabemos é que esta loucura infantil – a posse e a ameaça de uso de armas nucleares – está no cerne da actual filosofia política dos Estados Unidos. Devemos recordar a nós mesmos que os Estados Unidos estão numa permanente postura militar e não mostram sinais de a relaxar.

Muitos milhares, se não milhões, de pessoas nos próprios Estados Unidos estão manifestamente enojados, envergonhados e zangados pelas acções do seu governo, mas tal como estão as coisas não são uma força política coerente – ainda. Mas a ansiedade, a incerteza e o medo que podemos ver a crescer diariamente nos Estados Unidos não é provável que diminua.

Sei que o presidente Bush tem muitos escritores de discursos competentes, mas gostaria de oferecer­‑me como voluntário para o emprego. Proponho o seguinte breve discurso que ele pode fazer na televisão à nação. Vejo­‑o solene, com o cabelo cuidadosamente penteado, sério, confiante, sincero, frequentemente sedutor, por vezes empregando um sorriso irónico, curiosamente atraente, um autêntico macho.

“Deus é bom. Deus é grande. Deus é bom. O meu Deus é bom. O Deus de Bin Laden é mau. O seu é um mau Deus. O Deus de Saddam era mau, só que ele não tinha um. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Nós não cortamos as cabeças das pessoas. Nós acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou bárbaro. Eu sou o líder democraticamente eleito de uma democracia amante da liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Ministramos uma electrocução compassiva e uma compassiva injecção letal. Somos uma grande nação. Eu não sou um ditador. Ele é. Eu não sou um bárbaro. Ele é. E ele é. Todos eles são. Eu possuo autoridade moral. Vêem este punho? Esta é a minha autoridade moral. E não o esqueçam”.

A vida de um escritor é extremamente vulnerável, quase uma actividade nua. Não temos que chorar por isso. O escritor faz a sua eleição e fica colado a ela. Mas é verdadeiro dizer que estamos expostos a todos os ventos, algum deles certamente gelados. Estás por tua conta, sobre uma perna. Não encontras refúgio, nem protecção – a não ser que mintas – em cujo caso, evidentemente, terás construído a tua própria protecção e, poderia argumentar-se, ter­‑te­‑ás transformado num político.

Referi-me à morte bastantes vezes esta tarde. Vou citar agora um poema meu chamado Morte

Onde foi o cadáver encontrado?
Quem encontrou o cadáver?
Estava o cadáver morto quando o encontraram?
Como estava o cadáver encontrado?

Quem era o cadáver?

Quem era o pai ou filha ou irmão
ou tio ou irmã ou mãe ou filho
do morto e abandonado cadáver?

Estava o cadáver morto quando foi abandonado?
Foi o cadáver abandonado?
Por quem tinha sido abandonado?

O cadáver estava nu ou vestido para uma viagem?

O que o fez declarar morto o cadáver?
Declarou morto o cadáver?
Quão bem conheceu o cadáver?
Como soube que o cadáver estava morto?

Lavou o cadáver?
Fechou ambos os seus olhos?
Enterrou o corpo?
Deixou­‑o abandonado?
Beijou o cadáver?

Quando olhamos para um espelho pensamos que a imagem que nos enfrenta é exacta. Mas se nos movemos um milímetro a imagem muda. Estamos na verdade a olhar para um interminável leque de reflexos. Mas algumas vezes o escritor tem que estilhaçar o espelho – pois é do outro lado do espelho que a verdade nos olha.

Creio que, apesar das enormes dificuldades que existem, uma firme, inquebrantável, feroz determinação intelectual, como cidadãos, para definir a autêntica verdade das nossas vidas e das nossas sociedades é uma obrigação crucial que nos diz respeito a todos. É, realmente, obrigatório.

Se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não temos esperança de restaurar o que está quase perdido para nós – a dignidade do ser humano.

25 dezembro 2004

Nem sempre se veste de vermelho


Era uma vez um lingrinhas,
Rapaz de jovem aparência,
Que um dia descobriu umas belas ruguinhas...
Que, dizia ele, não tinham que ver com a sua essência!

Tentando encontrar uma solução,
Para ter uma aparência fantástica,
Começou ele a fazer muita ginástica,
Não se fosse transformar num bicho papão!

Mas nem assim as suas amiguinhas
Deixaram de dar um ar da sua graça.
E mesmo com muito esforço e muitas corridinhas,
Persistiam em agravar a sua desgraça!

Como o autobronzeador,
Para que se sentisse mais sedutor,
Deixou de funcionar...
Para resolver o problema teve de muito pensar!

Como no Pai Natal já não tem idade para acreditar,
Houve então uma fada jeitosa, linda, fenomenal,
Que fazendo uso das suas artes mágicas,
Lhe veio dizer que ele existe afinal!

Esperando que não levasse a mal,
Até porque é Natal...
A fada a solução engendrou.
E não é que com muitos cremes, muitos cuidados, a sua aparência melhorou?!

Nem sempre se veste de vermelho,
Nem de trenó se faz transportar.
Pode ser qualquer um de nós:
Homem, mulher, novo ou velho.
Apenas interessa que traga na voz

Algo que um sorriso nos faça despertar!

25 dezembro 2002

Cristina & Ricardo

Cristininha, Ricardinho,
Nesta tentativa de rimar
Para vocês foi complicadinho
Uns versinhos arranjar

Mas depois de algum esforço,
Acho que me consegui concentrar..
Lá escrevi um esboço
Do que vos quero desejar

Muito amor, muita alegria,
Que ainda está por completar,
Mas pode ser que para o ano
Com outra oferta nos possam presentear.

Para a minha querida maninha,
Tita de apelido,
Que o ano novo te traga, pelo menos, um nadinha
De tudo o que tenhas pedido.

Aqui fica então,
Para alguém muito especial,
Um enorme beijão,
Para vos desejar um Bom Natal.

Para um amigo especial

Com bons e menos bons instantes
Tem a vida tido jeito para nos presentear...
Ficam aqui expressos os desejos constantes
De que juntos outros voltemos a passar.

Aproveitando o espírito desta quadra natalícia
Para de rumo as nossas vidas mudar
Do ano novo vamos fazer uma delícia
Para as nossas vidas alegrar

Aqui fica então
Para alguém muito especial
Um enorme abração
Para te desejar um bom Natal

Nada é comparável aos sinais

Para alguém muito especial
A quem por vezes é difícil expressar
Tudo o que na alma me vai
E que se sintetiza na palavra amar

Um dos meus amores incondicionais
Que é mais sentido do que dito
Mas nada é comparável aos sinais
Que sempre vejo, interpreto e sinto.

A um dos meus maiores amores...

Para quem ultimamente diz: "Para tudo me estou a marimbar"
Uma marimba como instrumento,
Nada melhor para nos animar
Neste precioso momento.

Mas em quadra natalícia
Vamos de espírito mudar
Porque do ano novo temos de fazer uma delícia
Para a nossa vida alegrar

Brindemos ao que de bom todos temos
No nosso coração para dar
E esqueçamos, pelo menos, por momentos
Tudo o que nos faz rezingar.

De rezingonas de profissão,
Somos nós dois bons exemplares.
Mas será que vale a pena então,
Chateares-te em vez de me amares?

A um dos meus maiores amores,
Embora, por vezes, também das minhas maiores dores,
Um infinito beijo
E tudo de Bom, que é o que, de verdade, te desejo.

Como o Pai Natal ainda anda de renas...

Após muita pesquisa,
Nada consegui encontrar.
Apenas esta delícia,
Para ao menos te consolar.

Mas como o Pai Natal ainda anda de renas,
É provavél que chegue atrasado.
Por isso ao Menino é sempre bom rezar umas novenas,
Não vá ele não ter notado como bem te tens portado!

11 maio 2002

Jogo de Palavras ....

(Beatriz Tettamanzi in http://sofrega.blogspot.com/)

VERDE BORDEAUX CORES SENTIDOS PALADAR SAL ENGORDA FORMOSA ILHA CABANA DOIS MADEIRA FOGO PAIXÃO VIDA RAZÃO TALVEZ PRINCESA FADA SAPO PRÍNCIPE BEIJO ACORDAR AMOR PRIVILÉGIO ALGUNS SONHOS HÚMIDOS TRÓPICOS ÁGUA MAR VIDA ETERNA LUZ SOL LUA OBSCURO CLARO LÍMPIDO SUJO TRAIÇÃO CIÚME POSSE OBSESSÃO LOUCURA LARANJA ÊXTASE ÚNICA EU RESPIRAR SOBREVIVER SER HUMANO DOIS UM TODO MUNDO GALÁXIA ESTRELAS FOGUEIRA NOITE LUAR ESPERANÇA PAIXÃO VIVIDA SERÁ QUÊ AVENTURA RISCO SEMPRE NUNCA VEZES OPORTUNIDADE ONDE FORES OLHOS PREVER SENTIR SONHAR EMOÇÃO VERMELHO FOGO CONFORTO CHAMPANHE MORANGOS FOGUEIRA LENHA VOLÚPIA LEVEZA EROTISMO SENSUALIDADE ENFIM SÓS PORQUÊ COISAS VIDA SEMPRE COMO DIGIRO SINTO TUDO TAMBÉM F**DER G ACTO CHEIRO FLOR ALMA AURA OLHOS VISTA ÍRIS ARCO CURVAS CONTRA TUDO NADA MUITO POUCO SIM NÃO BOM SUBLIME ALGUNS ESCOLHIDOS PARCEIRO JOGO CANETA ESCRITA CARGA POSITIVA SUBLIME PRAZER MAMAS ALIMENTO LEITE MATERNO FILHO DESCENDENTE GENÉTICO ALEATÓRIO CAOS CONCRETIZAÇÃO SENTIR EVOLUIR HUMANIDADE INDIVÍDUO UMBIGO TU BEIJO ÍNTIMO TOQUE MÚSICA PAROU OLHOU OUVE OUTRO VIDA LABIRINTO CONFUSO NOVELO INFINITO PONTO BITOLA MEDIDA ESCALA NOTA HARMONIA CÉU LIBERDADE CRAVO ABRIL PALAVRA NÚMERO TOTAL MATEMÁTICA OBJECTIVO CAÓTICO FREQUENTE SEMPRE ESPERANÇA D. QUIXOTE MOINHO PLANÍCIE HORIZONTE PLENITUDE RARA CONSTANTE PENSAMENTO FORMA INEXISTENTE ALGURES PERDIDO HÁBITO VESTIDO DESPIDO TUDO TODA VERDADE SINCERA PURA MAGIA ILUSÃO QUÍMICA FÍSICA ESPIRITUAL DEUS HOMEM TERRA CÉU MAR VELEJO VENTO ÁGUA VIDA PURA DOR INQUIETUDE ESPÍRITO PRECISO DIAMANTE DOMINGO DESPORTIVO LINDO BEBÉ INGÉNUO CRÉDULO FORTE RESISTENTE NECESSIDADE TER SER SENTIR PALAVRAS DADAS DADOS POKER JOGO ESTRATÉGIA CONFUSA PERDIDA GANHA APOSTA APOSTO QUÊ TUDO QUÊ VIDA QUAL MINHA DÚVIDA SIM NÃO ADORO-TE TAMBÉM CHARMOSA SEDUTORA BONITA TENTAÇÃO ABISMO QUEDA SEGURO CORDA BOCA DISCURSO LÍNGUA SOGRA FARINHA TRIGO MILHO BROA MANTEIGA DERRETE CALOR FONTE CORAÇÃO PALPITA VAMOS DESTINO AGORA MOMENTO SENTES PODES POÇO FUNDO ESCURO PRETO NEGRO TRISTE FELIZ CONTENTE SEMPRE EU NÓS MUNDO ILHA ISOLAMENTO SOLIDÃO PROVEITO COMIDA SACIAR GULA PECADO IGREJA OMNIPRESENTE AMOR DEUS CRENÇA RELIGIÃO ÓPIO DROGA VÍCIO MAIOR DESEJO ENCANTO DESENCANTO RAZÃO RACIONAL EMOÇÃO LINDA MUITO QUANTIDADE QUALIDADE VIDA MORTE PERDA TRISTE ANGÚSTIA DESESPERO ACTO SEXUAL SEXUADO DESEJO CONCRETIZAR FAZER DAR ENTREGAR ALMA PELE SENSÍVEL TOQUE TAMBOR SOM OUVIDO ORELHA DENTADA DENTES NOZES DEUS EXISTE FORMA PÃO FOME ÁFRICA PAIS ACONCHEGO FETO EMBRIÃO ESPERMA VIDA AMOR TAMBÉM BOM AMIGOS INIMIGOS EXISTEM ONDE ALGURES IMPRECISÃO CONFUSO INDEFINIDO VIDA ... BOM ... CONSENTES NÃO! AINDA ...